Na proposta remota, o número grande da planilha raramente decide sozinho. CLT e PJ carregam pacotes diferentes: um lado traz direitos e encargos previstos em lei; o outro traz faturamento, tributos, contabilidade e a responsabilidade de provisionar o que a CLT embute.
Este artigo ensina um método de comparação. Não elege um modelo como superior em renda ou estabilidade. Os números abaixo são exemplo hipotético — troque as premissas pelas suas.
Comece pelo pacote, não pelo rótulo
Na CLT, compare salário + benefícios + provisões legais (13º, férias com 1/3, FGTS depositado pela empresa, entre outros previstos na legislação aplicável). No PJ, compare faturamento da nota menos tributos, contabilidade, pró-labore/previdência quando existirem, benefícios que você compra e reserva para folgas e meses fracos.
Faturamento PJ não é renda pessoal líquida. Se a proposta mistura “CLT de R$ X” com “PJ de R$ X”, você ainda não comparou a mesma coisa.
Questões de pejotização, vínculo e autonomia ficam no eixo jurídico — ver contratação PJ e pejotização. Aqui o foco é a conta.
Lista rápida do que a CLT costuma embutir
Itens frequentes no pacote CLT (detalhes e exceções dependem do contrato e da lei): remuneração mensal; 13º; férias + 1/3; depósito de FGTS pela empresa; jornada e limites regulados; eventual VR/VA, plano de saúde e outros benefícios da política interna.
Nem todo benefício é “percentual universal”. Trate VR/VA/saúde como premissas daquela proposta.
Lista rápida do que o PJ precisa carregar
No PJ, em regra você provisiona: tributos do regime escolhido; contabilidade; eventual pró-labore e contribuição previdenciária; equipamento/internet; plano de saúde; períodos sem faturamento (férias comerciais, gaps entre contratos); reserva de emergência.
Não é necessário, neste artigo, detalhar PGDAS-D, Fator R, exportação ou IOF. Se a proposta for internacional em moeda estrangeira, use o método do Contractor em dólar versus CLT/PJ.
Exemplo hipotético (substitua as premissas)
Premissas só deste exemplo: profissional pleno remoto; CLT com salário bruto R$ 8.000 + R$ 800 de benefícios; PJ com faturamento R$ 10.400 (30% acima do bruto CLT neste cenário, não como regra); DAS ~8% apenas como hipótese ilustrativa — não é alíquota universal de PJ nem recomendação fiscal (a carga real depende de atividade, CNAE, regime, faturamento e, quando couber, folha/Fator R); contabilidade R$ 200; provisão CLT de 13º+férias+1/3 aproximada como R$ 8.000/12 + (R$ 8.000×1,33)/12; na coluna PJ, “provisionar” esses itens é método de comparação, não obrigação legal do contratante; FGTS 8% = depósito patronal em conta vinculada, usado só como componente do pacote — não dinheiro líquido mensal no bolso.
| Componente (exemplo) | CLT (hipótese) | PJ (hipótese) |
|---|---|---|
| Referência mensal | Salário bruto R$ 8.000 | Faturamento R$ 10.400 |
| 13º + férias+1/3 (provisão mensal ilustr.) | + R$ 1.111 | a negociar (método; sem obrigação legal PJ) |
| FGTS (8% sobre salário — premissa legal típica) | + R$ 640 (empresa) | não há FGTS de emprego |
| Benefícios (VR/VA/saúde — premissa) | + R$ 800 | comprar por conta própria |
| Tributos/encargos no bolso (ilustr.) | − R$ 1.600 (INSS/IR ilustr.) | − R$ 830 (DAS ~8% só neste exemplo) |
| Contabilidade (premissa) | — | − R$ 200 |
| Ordem de grandeza neste exemplo | ~ R$ 8.950 “pacote” | ~ R$ 9.370 “após custos” |
Neste cenário ilustrativo, o PJ “sobra” um pouco mais se as premissas forem verdadeiras e se houver PTO/reserva equivalentes. Mude o DAS, tire o benefício CLT ou zere a reserva de folga no PJ e o placar vira. Por isso não trate faixas percentuais de mercado como regra: qualquer diferença desejada entre faturamento PJ e salário CLT resulta das premissas do cenário — não de uma lei.
Quando o número maior não compensa
Sinais de fragilidade econômica (ainda no eixo da conta): PJ sem espaço para provisionar folga; benefícios CLT altos (saúde familiar, bônus) ignorados na comparação; proposta que só fecha com câmbio/otimismo tributário; múltiplos contratos prometidos sem pipeline real.
Roteiro: (1) liste o pacote CLT anual e divida por 12; (2) estime o líquido PJ após tributos e contabilidade; (3) reserve saúde + folga + gap; (4) compare; (5) só então negocie. Sem multiplicador mágico.
CLT e PJ resolvem problemas diferentes. A decisão útil é explicitar premissas e comparar pacotes — não coroação de um modelo. Se a dúvida cruzar autonomia e risco de vínculo, volte ao texto jurídico de pejotização; se cruzar dólar e câmbio, use o artigo de Contractor.